Gestação
O embrião para uma vontade de museu se desenvolveu a partir de uma pesquisa pautada em uma metodologia voltada para desenvolvimento de políticas públicas de patrimônio. Esse foi o pontapé para um desenrolar de afetos, descobertas, afirmações, reflexões e (re)conhecimentos que mobilizou as parteiras a elaborarem sugestões, propostas, ideias, dentre elas a de um museu: o Museu da Parteira.

Nascimento
O Museu da Parteira nasceu do desejo de parteiras pernambucanas de narrarem sua história por si próprias. Assim, o museu nasceu e cresce enquanto um centro de referência sobre o partejar tradicional, promovendo seus saberes e suas práticas, valorizando suas detentoras e transformando-se num local de reflexão e articulação de novas ideias e parcerias.
O Museu da Parteira representa um museu em processo, no qual uma série de ações vêm construindo e propagando narrativas imagéticas, expográficas, documentais e biográficas acerca desse universo. Assim, ele existe sem muros, desterritorializado, itinerante.

Trajetória
O Museu da Parteira é um museu experimental. Uma iniciativa que planeja e realiza um conjunto de ações continuadas de salvaguarda, promoção e valorização dos Saberes e Práticas das Parteiras Tradicionais, abarcando a transversalidade das práticas de preservação do patrimônio cultural. Coordenado pelas Associações de Parteiras Tradicionais de Jaboatão dos Guararapes e de Caruaru, Departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernambuco e Grupo Curumim, o museu vem desenvolvendo ações em diversas esferas: exposições, publicação de livros, produção de filmes, realização de encontros e debates.
Por sua atuação, em 2018, a iniciativa foi contemplada com o 3º Prêmio Ayrton de Almeida Carvalho de Preservação do Patrimônio Cultural, ofertado pela Fundarpe, na categoria Acervo Documental e Memória.
Em 2023, o Museu recebeu do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), com nota máxima, o Prêmio Pontos de Memória - Edição Helena Quadros, o qual tem por finalidade reconhecer e premiar práticas em museologia social e processos museais comunitários que tenham contribuído para a identificação, registro, pesquisa e promoção do patrimônio material e imaterial de grupos, povos e comunidades representativos da diversidade cultural brasileira. Neste ano, foi certificado como Ponto de Memória.
Em 2024, recebeu o Prêmio Mário de Andrade, da Associação Brasileira de Antropologia, na categoria – Trabalho de Divulgação e de Difusão, pelo trabalho “Museu da parteira: articulando saberes e tecendo redes”. O prêmio tem como objetivo estimular reflexões e produções técnicas, científicas e artísticas sobre processos de reconhecimento, documentação e difusão de patrimônios culturais, bem como sobre a constituição, conservação e divulgação de coleções museológicas, entre outras questões atinentes à relação entre antropologia, museus e patrimônio cultural.
Nesse mesmo ano, a ação continuada “Troca de Saberes: Tecendo Redes” foi agraciada com o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade (37ª edição), ofertado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). O Prêmio, de caráter nacional, é promovido pelo Iphan desde 1987, como mecanismo de fomento às ações de preservação e salvaguarda do patrimônio cultural brasileiro que, em razão da sua originalidade, relevância e caráter exemplar, mereçam registro, divulgação e reconhecimento público.
Ainda em 2024, o Museu recebeu o Prêmio Cultura Viva Zefinha Parteira, promovido pelo município de Caruaru e voltado para o desenvolvimento da “Rede Municipal de Pontos e Pontões de Cultura de Pernambuco) no âmbito da Política Nacional de Cultura Viva (PNCV) com recursos oriundos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB). Assim, o Museu certificou-se também como Ponto de Cultura.

Quem somos

Dona Prazeres

Dona Prazeres
Maria dos Prazeres de Souza (Prazeres), nascida em 1937, moradora do município de Jaboatão dos Guararapes, Região Metropolitana do Recife, filha e neta de parteiras, já perdeu as contas de quantas crianças ajudou a nascer. Articula e reúne parteiras na Associação de Parteiras Tradicionais e Hospitalares de Jaboatão dos Guararapes, da qual é presidente. Ao longo de sua vida, prestou assistência a mulheres em partos domiciliares e hospitalares. Conta que vem fazendo a “simbiose” dos saberes tradicionais e técnicos acumulados em sua trajetória de vida. Em 2008, recebeu o Diploma Mulher-Cidadã Berta Lutz, ofertado pelo Senado Federal a mulheres que “tenham oferecido contribuição relevante à defesa dos direitos da mulher e questões do gênero”. Em 2018 foi titulada Patrimônio Vivo de Pernambuco.

Zefinha Parteira

Zefinha Parteira
Josefa Alves de Carvalho (Zefinha), nascida em 1938, aprendeu “no susto” a assistir partos, atendendo à necessidade da comunidade, no município de Caruaru, agreste de Pernambuco. Parteira há mais de quatro décadas, tendo assistido mais de mil partos, acredita que aprender o ofício por meio da observação e ter sucesso nos atendimentos é um dom divino. Durante anos foi presidente da Associação de Parteiras Tradicionais de Caruaru, fundada em 1992, responsável por agregar parteiras de todo o Agreste e promover reuniões de troca de experiência e mobilização política. Em 2020 recebeu o Prêmio de Salvaguarda de Saberes Tradicionais e da Cultura Popular/Lei Aldir Blanc/Pernambuco. Em 2021, foi reconhecida como Patrimônio Vivo de Caruaru. Zefinha nos deixou em fevereiro de 2022.

Mãe Dôra

Mãe Dôra
Maria das Dores da Silva Nascimento (Dôra), nascida em 1964, liderança e parteira Pankararu, iniciou-se no ofício aos 18 anos acompanhando parteiras mais velhas no momento em que mulheres das aldeias próximas davam à luz. Mantendo e transmitindo as tradições da etnia, Dôra é responsável pela inserção e formação de novas mulheres no ofício. Sua atuação vem ajudando as mulheres Pankararu a voltarem a ter filhos em seus lares, reforçando a identidade indígena e promovendo a valorização do ofício. Em 2020 recebeu o Prêmio de Salvaguarda de Saberes Tradicionais e da Cultura Popular/Lei Aldir Blanc/Pernambuco. Em 2022, foi titulada Patrimônio Vivo de Pernambuco.

Juliana Pankararu

Juliana Pankararu
Nascida em 1974, Juliana é parteira pankararu, moradora da Aldeia Saco dos Barros. Filha e irmã de parteiras, aprendeu o ofício por meio da oralidade e mantém a tradição de seu povo. Em 2021, recebeu o Prêmio de Salvaguarda Emergencial da Cultura Popular e Povos e Comunidades Tradicionais, Lei Aldir Blanc/Pernambuco.

Edileusa Maria da Silva

Edileusa Maria da Silva
Edileusa é parteira e conhecedora dos saberes relacionados às plantas medicinais. Vive na Guabiraba, no Recife. Em 2021, recebeu o Prêmio de Salvaguarda Emergencial da Cultura Popular e Povos e Comunidades Tradicionais, Lei Aldir Blanc/Pernambuco. Edileusa foi reconhecida Patrimônio Vivo do Recife em 2023.

Maria Fernanda da Silva

Maria Fernanda da Silva
Maria Fernanda Carvalho é parteira tradicional e enfermeira obstetra. É filha de Zefinha Parteira, com quem aprendeu a arte de partejar. Integra, desde a fundação, a Associação de Parteiras Tradicionais de Caruaru, da qual já foi presidente.

Júlia Morim

Júlia Morim
Júlia Morim é antropóloga, especialista em Museus, Identidades e Comunidades pela Fundação Joaquim Nabuco/FUNDAJ e doutoranda em Antropologia no PPGA/UFPE. Atua nas áreas de patrimônio, memória, museus e audiovisual. É também produtora cultural. Como realizadora audiovisual, idealizou e dirigiu os filmes Simbiose (2017), Saber de Parteira (2020) e Nossas Mãos São Sagradas (2021), ações do Museu da Parteira. Vem caminhando com as parteiras tradicionais desde 2008 e contribuindo na construção deste Museu. É mãe de Maria e Esmeralda.

Elaine Müller

Elaine Müller
Elaine Müller é antropóloga, com mestrado e doutorado pelo PPGA/UFPE. É professora no Departamento de Antropologia e Museologia da UFPE, onde atua nos cursos de Ciências Sociais e Museologia, no Expolab e no grupo Narrativas do Nascer. Dialoga com parteiras tradicionais desde sua primeira gestação, tentando transformar em projetos as tantas ideias das comadres. É mãe de Lourenço, Francisco e Magnólia, e integra a equipe do Museu da Parteira desde o início.

Paula Viana

Paula Viana
Enfermeira, Parteira e Feminista. Desenvolve ações para a ampliação de conhecimentos sobre saúde integral, direitos sexuais e direitos reprodutivos para mulheres, jovens e adolescentes e com profissionais da saúde e educação, incluindo parteiras tradicionais, indígenas e quilombolas de todo Brasil. Atua nos Comitês de Estudos e Prevenção da Mortalidade Materna.

Eduardo Queiroga

Eduardo Queiroga
Eduardo Queiroga é fotógrafo e professor. Autor dos livros “Cordão” e “Coletivos fotográficos contemporâneos”. Professor do Departamento de Fotografia e Cinema da Escola de Belas Artes da UFMG. Cofundador da Escola Livre de Imagem e do Projeto FotoLibras. Fotografa parteiras tradicionais desde 2008, trabalho que integra diversos projetos do Museu da Parteira. É doutor pelo PPGCOM-UFPE. Um dos idealizadores do Pequeno Encontro da Fotografia. É pai de Pedro e Daniel.

Marília Nepomuceno

Marília Nepomuceno
Marília Nepomuceno, brasileira nascida em Pernambuco, é uma mulher-cis negra, afroindígena, e mãe de duas crianças. Produtora Cultural, Educadora Popular, Pesquisadora graduada em Ciências Sociais, Técnica Agrícola com ênfase em Agroecologia (SERTA) e Mestranda em Antropologia (PPGA/UFPE). Coordenou o projeto "Cartografia de Parteiras Indígenas em Pernambuco" e atualmente colabora em pesquisas e projetos que costuram diálogos e ações entre a Antropologia da Saúde, a Ecologia Política, as Relações Humanas e Mais que Humanas, e as Relações entre Territórios, Memória e Patrimônio.