Quando eu tinha uns oito ou nove anos, eu morava em Olinda, Pernambuco. Minha família toda – tios, tias, primas e primos – morava junta. As casas eram quase vizinhas. Estava, um dia, numa festa (sempre havia uma) na casa de meu avô, quando um primo menor que eu saiu em disparada para a rua e um carro ia passando. Eu só sei que corri atrás dele e agarrei o menino. Na hora tive uma sensação tão boa, tão boa… Salvei meu primo! Uma sensação tão boa! Meus tios ficavam repetindo essa estória e eu fui ficando meio envergonhada. Mas, ao mesmo tempo, era muito bom sentir tudo aquilo.
Outra vez, era um pouco maior, tinha uns 12 anos e estava “pegando jacaré” (descendo as ondas sem prancha). Essa praia ficava em frente à minha rua e eu sempre ia, pois dava as melhores ondas. Era uma praia cercada de diques de pedra e iam famílias que ficavam fazendo piquenique embaixo de umas estruturas de madeira. Havia crianças na beira mar. Quando peguei uma onda que ia me deixar na beira vi um homem desesperado, gritando. Dei um “freio no jacaré”. Foi quando vi uma cabeça e mãos se debatendo embaixo d`água. Eu pulei da prancha e puxei o menino pelos cabelos. Ele já estava com a boca aberta, também desesperado, com os olhos bem abertos. Logo vieram seu pai e outras pessoas. Esse homem se voltou para mim, sorriu e apertou meu ombro, não falou nada e disse tudo. Aí, chegou de novo a sensação maravilhosa de ter salvado uma vida. Voltei para o mar e veio logo outra onda, daquelas Rainhas que Netuno sempre manda, e veio o resto da minha vida.
Ao me formar em enfermagem, me aproximei da psiquiatria, mas, nesse campo, era difícil promover saúde. Não dei conta do problema social da loucura, do preconceito e desisti. Na faculdade havia me aproximado da obstetrícia, mas o nível de violência era absurdo em sala de parto. Somente depois de alguns anos pude experimentar de novo aquela sensação gigante de salvar vidas. Pude me aproximar da verdadeira obstetrícia quando conheci um médico que se dizia parteiro. Depois conheci as parteiras e meu mundo se abriu para novamente sentir e ver de novo o sorriso de gratidão à natureza, ternura e de eternidade. Ah, eu posso ser parteira! Pude ir às casas das famílias e mulheres, vivia a intimidade, trançava cumplicidade. Isso encheu meu coração de novo de alegria, compaixão, solidariedade. Ajudei muitas mulheres a dar à luz. E saía renovada a cada parto. Partos difíceis muitas vezes. Às vezes, uma maternidade não planejada e até não desejada. O cuidado então, com a integridade, com a individualidade, o respeito à diversidade. Criar o ambiente propício para se estabelecer a saúde e a consciência de receber um novo ser no mundo. Essa postura à frente de um momento tão importante eu aprendi com as parteiras tradicionais. O respeito e a ética ao estar lado a lado com uma mulher nesse momento tão marcante, aprendi com as parteiras tradicionais. A tecnologia adaptada ao ambiente, à situação social e econômica de cada família por onde passei, eu aprendi com as parteiras tradicionais.
Hoje exerço um papel de impulsora na questão do reconhecimento das parteiras tradicionais como elo fundamental entre a comunidade e a rede de saúde, o SUS. Fazer parte do Grupo Curumim tem sido fundamental para que aquele desejo de salvar vidas seja ampliado e que, compartilhando e trocando com parteiras de todo país, eu possa dar mais alegria a esta profissão, mais vida. Trabalho para que o trabalho delas seja valorizado, pago e com suporte adequado que garanta sua qualidade. Dando uma boa mistura de tradição, culturalidade, tecnologia apropriada e respeito aos direitos reprodutivos de todas as pessoas.
Hoje, não atendo partos, mas nunca negarei “fazer o benefício” como aprendi com D. Antônia, parteira já falecida, de São José de Belmonte, sertão de Pernambuco: “Parteiras nunca se aposentam!”.

Paula Viana
Enfermeira e Arteterapeuta
Integra a Coordenação Colegiada do Grupo Curumim
E-mail: paulaviana@grupocurumim.org